O Relógio marcava 4 horas da madrugada, de uma quinta feira do mês de setembro de 2008, quando eu e seis surfistas partimos de Punta Hermosa rumo a Chicama, a onda mais longa do mundo, um templo místico do surf. Estávamos a bordo de uma Van Mitsubish automática, com ela atacaríamos a carretera Pan Americana.
Fui ao Peru para conhecer as ondas e a cultura do país, porém meu objetivo principal, minha missão, minha fantasia, era respirar o ar salgado e desértico da praia que há tempos tinha despertado a minha curiosidade.
A estrada se apresentava em perfeitas condições, o deserto nos acompanhava incansavelmente e o Bob Marley cantava emocionado Small Axe... Na minha cabeça martelava a frase “será que eu vou surfar em Chicama?”, estava decidido que mesmo que estivesse totalmente flat, uma lagoa, eu entraria na água, nem que fosse para meditar.
No caminho paramos em uma praia perdida no meio do deserto peruano, Bermejo era o nome dela, uma esquerda fenomenal em um lugar sem nenhum sinal de civilização por perto. Não surfamos, faltava muito ainda para chegar no destino e por isso resolvemos seguir em frente sem perder mais tempo.
Agora o relógio marcava 16 horas e o sol completava a paisagem que era um pouco mais verde, no rádio do carro Eddie Vedder e o Peal Jam embalavam meus pensamentos com músicas como i am mine e last Kiss, eu demorava para assimilar que estava chegando em Chicama. Pouco tempo depois, após atravessar um vilarejo fantasmagórico, estávamos em frente à lendária esquerda, o sol era forte, as ondas estavam muito pequenas, mas dava para sentir a vibração, o astral do lugar. Ficamos um tempo observando e resolvemos partir para Pacasmayo e nos hospedar, eu queria ficar hospedado em chicama mesmo, porém perderia a oportunidade de conhecer os lugares mais ao norte e os caras me prometeram que voltaríamos ali, mesmo que o mar estivesse pequeno.
Nos três dias seguintes conhecemos as praias de Pacasmayo, El faro e Poemape, ficamos hospedados na pousada Los faroles, encontramos alguns brasileiros por lá e gostamos muito do sol e do calor do norte peruano.
Era domingo de manhã quando chegamos em Chicama pela segunda vez, sem perder tempo eu coloquei meu long John e desci o barranco que me separava das ondas, das longas e perfeitas ondas da praia de Puerto Malabrigo, conhecida mundialmente como Chicama “la ola más larga del mundo”. Entrei no mar sozinho e rapidamente dropei uma onda e surfei por vários metros, voltei rindo e gritando, sem sentar na prancha já peguei outra e surfei até a areia, saí e entrei novamente no mar e peguei a terceira onda, a onda que considero a melhor da minha vida, a onda que me fez acreditar que valeu a pena ir até lá, a onda que pagou a minha passagem ao Peru, a onda que fez eu me sentir um surfista de alma, a onda que jamais esquecerei, a onda mais longa e perfeita que eu já presenciei.
Naquele momento esqueci tudo, nada se passava pela minha cabeça a não ser a frase “eu estou surfando Chicama”, não pensava em nada, parecia que o tempo tinha parado para mim, parecia que tudo conspirava a meu favor. Surfei mais doze ondas e tive que sair, dar uma última olhada e partir de volta para Lima.
O Peru é incomparável e suas ondas são inegavelmente boas. Não sei quanto aos meus amigos, mas eu voltei feliz, a minha missão foi cumprida, meu objetivo foi conquistado, minha meta foi alcançada, sou um surfista melhor, sou um homem mais experiente.
Chicama agora é um amor antigo, um amor que não tem MSN e nem orkut, um amor guardado na lembrança e que talvez um dia posso encontrar novamente.
