PARTE II
Quando clareou o quarto dia de viagem chegamos ao nosso objetivo, o oceano Pacífico, mais precisamente a famosa praia de Punta Lobos, que nos recebia com esquerdas perfeitas e geladas. Não surfamos e fomos procurar um lugar para nos hospedarmos e menos de meia hora mais tarde já estávamos descarregando o indubitável uno e nos estabelecendo em uma cabana muito confortável, distante cem metros da praia de La Puntilla. E foi nessa praia que tivemos o primeiro contato com a gélida água chilena, cabeça, pés e mãos congelados e boas esquerdas surfadas. Surfamos quase sempre equipados com botinhas e gorros de neoprene, o frio não nos deixava ficar mais que uma hora na água, porém era o tempo necessário para pegarmos boas ondas.
Kim Miranda
Surfamos Punta Lobos, destaque para Douglas Oreba que desceu grandes ondas, e La Puntilla que sempre apresentava condições perfeitas para o surf, conhecemos também a praia de Infernillo, mas não surfamos porque as ondas estiveram sempre mexidas. Mas o momento soul surf da trip, o momento mágico que só surfista sabe o que é, aconteceu em um secret distante oitenta km do centro de Pichilemu.
Havia lido sobre este lugar e sabia que era de difícil acesso e que as ondas quebravam perfeitas em tamanho incrivelmente tentador, nem grande e nem muito pequeno. Abandonamos nosso companheiro uno e caminhamos mais de quatro horas até as ondas do secret, existia outro caminho, porém além de custar pesos preciosos era necessário um carro com tração nas quatro rodas. Chegamos exaustos, carregando pranchas, roupas de borracha, comida, água e barraca, mas valeu muito a pena porque ficamos frente a frente com esquerdas perfeitas e nem uma viva alma por perto, igualzinho víamos nos filmes quando éramos pequenos, aquela vibe de encontrar um lugar deserto com ondas perfeitas, surfamos muito, olas incribles, gritos de emoção, achamos um lugar épico, muito surf, muito soul surf por dois dias, acampados na frente da onde começava a onda. Vale contar que a volta até o uno foi muito mais cansativa que toda a viagem, uma odisséia torturante, pagamos todos os nossos pecados, chegamos ao carro igual alpinistas no cume do Everest, esgotados, mas com um sorriso estampado na cara, SOUL SURF SPIRIT.
Secret
Todos nós adoramos o Chile, prometemos voltar, mais do que as ondas eu gostei do povo chileno, fiquei muito feliz em conhecer a hospitalidade, alegria e boa vontade das pessoas que encontrei e tive a oportunidade de conversar.
Nossa missão estava cumprida, o objetivo foi alcançado com sucesso, e então estava na hora de partirmos de volta ao oceano Atlântico. Dez dias após nossa chegada em Pichilemu aceleramos para a casa, agora já conhecíamos o caminho e não nos perderíamos, não senti vontade de parar, não cansei, minha mente estava atenta e muito feliz com a viagem e então resolvi não parar, ou seja, do Oceano Pacífico no Chile até o Oceano Atlântico em Albatroz levamos 45 horas sem parar, ou melhor, parando apenas nas aduanas, nos postos de gasolina e na policia rodoviária. Firme controlei o meu fiel Uno por 3000 km, passando por três países em 45 horas. Talvez inconseqüência ou irresponsabilidade, mas antes de tudo confio em mim e sei até onde posso chegar.
Eu e meus amigos finalizamos mais uma soul surf trip, espero finalizar milhares de outras, porque o surf de alma não tem fronteiras, não tem vaidades, não tem regras, não tem leis, não tem preconceitos, o surf de alma é livre. Os humildes raramente tropeçam já dizia meu pai e assim sigo buscando meus ideais e acreditando que surf não é um esporte, é uma cultura!