segunda-feira, 4 de maio de 2009

EXPEDIÇÂO CHILE DE UNO


PARTE II

Quando clareou o quarto dia de viagem chegamos ao nosso objetivo, o oceano Pacífico, mais precisamente a famosa praia de Punta Lobos, que nos recebia com esquerdas perfeitas e geladas. Não surfamos e fomos procurar um lugar para nos hospedarmos e menos de meia hora mais tarde já estávamos descarregando o indubitável uno e nos estabelecendo em uma cabana muito confortável, distante cem metros da praia de La Puntilla. E foi nessa praia que tivemos o primeiro contato com a gélida água chilena, cabeça, pés e mãos congelados e boas esquerdas surfadas. Surfamos quase sempre equipados com botinhas e gorros de neoprene, o frio não nos deixava ficar mais que uma hora na água, porém era o tempo necessário para pegarmos boas ondas. Kim Miranda

Surfamos Punta Lobos, destaque para Douglas Oreba que desceu grandes ondas, e La Puntilla que sempre apresentava condições perfeitas para o surf, conhecemos também a praia de Infernillo, mas não surfamos porque as ondas estiveram sempre mexidas. Mas o momento soul surf da trip, o momento mágico que só surfista sabe o que é, aconteceu em um secret distante oitenta km do centro de Pichilemu.
Douglas Oreba

Havia lido sobre este lugar e sabia que era de difícil acesso e que as ondas quebravam perfeitas em tamanho incrivelmente tentador, nem grande e nem muito pequeno. Abandonamos nosso companheiro uno e caminhamos mais de quatro horas até as ondas do secret, existia outro caminho, porém além de custar pesos preciosos era necessário um carro com tração nas quatro rodas. Chegamos exaustos, carregando pranchas, roupas de borracha, comida, água e barraca, mas valeu muito a pena porque ficamos frente a frente com esquerdas perfeitas e nem uma viva alma por perto, igualzinho víamos nos filmes quando éramos pequenos, aquela vibe de encontrar um lugar deserto com ondas perfeitas, surfamos muito, olas incribles, gritos de emoção, achamos um lugar épico, muito surf, muito soul surf por dois dias, acampados na frente da onde começava a onda. Vale contar que a volta até o uno foi muito mais cansativa que toda a viagem, uma odisséia torturante, pagamos todos os nossos pecados, chegamos ao carro igual alpinistas no cume do Everest, esgotados, mas com um sorriso estampado na cara, SOUL SURF SPIRIT.
Secret


Todos nós adoramos o Chile, prometemos voltar, mais do que as ondas eu gostei do povo chileno, fiquei muito feliz em conhecer a hospitalidade, alegria e boa vontade das pessoas que encontrei e tive a oportunidade de conversar.

Nossa missão estava cumprida, o objetivo foi alcançado com sucesso, e então estava na hora de partirmos de volta ao oceano Atlântico. Dez dias após nossa chegada em Pichilemu aceleramos para a casa, agora já conhecíamos o caminho e não nos perderíamos, não senti vontade de parar, não cansei, minha mente estava atenta e muito feliz com a viagem e então resolvi não parar, ou seja, do Oceano Pacífico no Chile até o Oceano Atlântico em Albatroz levamos 45 horas sem parar, ou melhor, parando apenas nas aduanas, nos postos de gasolina e na policia rodoviária. Firme controlei o meu fiel Uno por 3000 km, passando por três países em 45 horas. Talvez inconseqüência ou irresponsabilidade, mas antes de tudo confio em mim e sei até onde posso chegar.

Eu e meus amigos finalizamos mais uma soul surf trip, espero finalizar milhares de outras, porque o surf de alma não tem fronteiras, não tem vaidades, não tem regras, não tem leis, não tem preconceitos, o surf de alma é livre. Os humildes raramente tropeçam já dizia meu pai e assim sigo buscando meus ideais e acreditando que surf não é um esporte, é uma cultura!

SURF EXPEDITION ATLÂNTICO-PACÍFICO DE UNO


PARTE I

Desde meu início no surf, há dez anos, não só ouço falar, como também assisto vários filmes que mostram as ondas do Chile, ondas grandes, fortes e geladas, porém perfeitas e quebrando em praias com paisagens alucinantes. O Chile sempre me atraiu, não apenas pelas ondas, mas também pela incomparável e bela Cordilheira dos Andes, a mais longa cordilheira de montanhas do mundo. Sempre achei esse país muito perto do Brasil e sabia que todos os dias vários caminhões brasileiros faziam o percurso Porto Alegre-Santiago. Como me considero um excelente motorista e muito mais corajoso fora do que dentro do mar decidi que estava na hora de conhecer as ondas chilenas e atravessar de carro a exuberante cordilheira.

Minha viagem começa com uma frase assim “Pai, Mãe! Vou pegar o Unera (fiat uno mille), chamar os guris e vou para o Chile, semana que vem”
Não se escolhe pai e nem mãe, por isso sei que sou um cara de sorte, de muita sorte, poderia mais uma vez contar com total apoio dos pais e com o indubitável, velho e leal amigo Unera.

Embarcaram junto comigo na aventura três amigos de diferentes cidades, mas todos surfistas de Albatroz, assim como eu. Estava em minha terceira viagem internacional, Wellintom Pene de Gravataí e Douglas Cardoso de Imbé estavam em sua segunda viagem e Thomaz Pinha de Ivoti estreava sua primeira trip para outro país, deixei bem claro que desta vez não seria uma trip para Santa, nem Uruguai, atravessaríamos todo o Rio Grande do Sul, Argentina e o Chile, ou seja, una viaje muy larga ou como dizem no interior gaúcho: Um peitaço dos grandes. Partiríamos da beira do oceano Atlântico e chegaríamos à beira do oceano Pacífico, armados com pranchas, roupas de borracha e muitos miojos. Contando com o meu conhecimento das estradas, rotas, clima e sempre acreditando na valentia do carro popular mais barato do Brasil.

Suando coragem e respirando ansiedade zarpamos de Albatroz, litoral norte gaúcho, com destino a Pichilemu, litoral sul chileno. Nosso brother Uno estava lotado, cinco pranchas presas no rack, porta malas totalmente ocupado e caindo bolachas e chocolates pelas portas. Sem cansar muito cruzamos o Rio Grande Amado e chegamos a Uruguaiana, alcançando a primeira fronteira, vale contar que a ajuda de um candidato a vereador de Uruguaiana foi de grande importância para conseguirmos um papel de entrada na Argentina e assim prosseguir nossa investida. Eleitores da fronteira Oeste gaúcha votem no Marcelo Lemos, esse cara é muito gente boa.

Muito nos falaram sobre a polícia argentina, propinas, regalos e tudo mais, ou seja, entramos no país já esperando por possíveis complicações. Mas estávamos tranqüilos porque tínhamos todos os documentos necessários e todos os equipamentos do código de trânsito. Não demorou muito para a sermos parados por barreiras policiais na estrada, meu espanhol agora estava mais lapidado e conseguia compreender e dialogar bem com os hermanos da policia caminera, fiz até alguns amigos, não sei se sentiam respeito ou pena, mas muitos comentavam que a viagem até o Chile era muito longa e dirigindo um uno era mais longa ainda.

As estradas argentinas eram muito boas, bem conservadas e com razoável sinalização, porém nos perdemos várias vezes em cidades grandes e com muito movimento nas ruas, aí entrava em ação meu spanish, misturando gírias peruanas, palavras de dicionário, sotaque gaúcho e letras de músicas do Manu Chao, funcionava bem e aos poucos ia entendendo o caminho certo a seguir, aproveitando para conhecer as pessoas e a cultura local, que para nós, é muito importante em uma viagem.

Após dois dias viajando pela Argentina chegamos a nossa última cidade antes da cordilheira dos Andes, a bela Mendoza, passamos pelo centro da cidade e paramos em frente à Universidade Federal. Universitárias lindas me instigavam a tentar um diálogo, talvez uma foto, mas não podia, faltava muito para o nosso destino e qualquer perda de tempo nos custaria uma gelada e sinistra noite no pé do Aconcagua, a maior montanha das Américas. Algumas horas depois entramos na lendária Cordilheira e paramos frente a frente com o místico Aconcagua, lindo, único e ao mesmo tempo desafiador, um lugar muito importante para alpinistas ou montanhistas do mundo todo. Fiquei encantado com a magia do lugar, mas logo acelerei o uno na direção da aduana chilena e horas mais tarde eu e meus companheiros passamos dos Andes argentinos para os Andes chilenos.
Aconcagua

Na fronteira os chilenos foram muito receptivos conosco e após a burocracia andina rumamos para a capital Santiago, mas antes teríamos que descer a estrada das 70 curvas (que não tem 70 curvas), a parte final da cordilheira. Meus amigos acharam meio apavorantes as curvas fechadas e sem qualquer proteção nas laterais, ou seja, qualquer erro voaríamos cordilheira abaixo, eu fiquei emocionado, achei incrível controlar o carro em curvas tão perigosas, uma experiência que levarei guardada na memória para sempre, pois afinal, da vida só levaremos o que vivemos.

O Chile é um país muito bem organizado e desenvolvido, a capital Santiago é uma grande cidade, com imensos prédios, carros e camionetes importadas por todos os lados, postos de gasolina muito bem estruturados e supermercados enormes. Sem querer, saímos da autopista que nos levaria ao sul e caímos no centro da capital, ficamos perdidos um bom tempo até conseguirmos subir novamente na estrada e rumar para o nosso destino, Pichilemu, a capital do surf chileno.