Meu nome é kim Miranda e junto com meus amigos Ipojucã Chaves e Tiago Deskadeira formamos a expedição Alma Surf Costa Rica. Somos três soul surfers gaúchos que começamos a surfar há dez anos. Eu sou professor de Educação Física e shaper, Ipojucã é surfista profissional e o Tiago é funcionário de uma empresa, nosso elo em comum é a forte amizade e o indubitável Soul Surf, aquele mesmo soul surf da década de 70 que motivava surfistas do mundo todo a saírem pelo mundo procurando por ondas e riquezas culturais, sem se importarem com dinheiro, roubadas e os perigos sempre presentes na estrada.
Esse sentimento, essa cultura surf de alma é o que nos move o que nos inspira para sair em busca das ondas mundo a fora, renegando vaidades e transformando nossos medos em coragem, assim todas as dificuldades que enfrentamos no caminho até o mar ajudam a construir o nosso mais sincero sorriso de felicidade. O nosso surf é romântico, não é performance, é amor, é sentimento puro e verdadeiro.
A Costa Rica é especial para nós, são as ondas que aparecem no clássico filme Endless Summer II, que embalava os nossos primeiros drops e nos questionava se um dia conseguiríamos surfar essas ondas. Agora já tínhamos certa experiência pela América do Sul, fruto de nossas viagens pelo Uruguai, Argentina, Chile e Peru, não éramos mais aventureiros virgens. Estava na hora de investir na América Central, em especial a lendária segunda onda mais longa do mundo, Pavones.
O dinheiro sempre é restrito, pouco, o que nunca foi problema para nós, a nossa estratégia sempre foi quando falta “plata” tem que sobrar “huevos”, ou seja, coragem. Pois foi suando coragem e com poucos chorados dólares no bolso que partimos para o que seria a Surf Trip de nossas vidas até então. Logo de cara uma dura noite no chão do aeroporto de SP, barbada para nós aventureiros sedentos por grandes histórias, depois ainda tivemos “la mano de diós” para embarcarmos quatro pranchas e pagar a taxa de somente uma.
Três vôos incrivelmente turbulentos nos levaram até San José, a capital da Costa Rica, e de lá saímos dirigindo um Jeep Daihatsu Bego zero km, carregado com nossas pranchas e três mochilas cheias de bolachas e erva mate que nos acompanhavam desde Porto Alegre, pois afinal já diziam antigamente na capital gaúcha “quem leva lanche de casa não gasta no bar do colégio”.
Fixamos dois objetivos que deveriam ser cumpridos de qualquer maneira, não pagar propina para a polícia e não ser roubado em hipótese alguma. Nossa primeira parada foi no Pacífico Central, onde conhecemos e surfamos as praias de Jacó, Hermosa e Roca Loca, ficamos só dois dias e resolvemos seguir o conselho de um velho californiano que conhecemos por lá, “GO TO THE MORNING SUN”, entendemos na hora o que aquela frase queria dizer, Pavones quebraria de gala e nossa alma surf gritava GO TO PAVONES!!!
Como um monstro na “boléia” do Jeep dirigi sem parar as nove horas que separavam Jacó de Pavones, polícia nenhuma nos parou e buraco nenhum foi páreo para Kim Miranda e o Jeep Bego. Logo estávamos frente a frente com a legendária, épica, incrível e linda esquerda de Pavones, surfamos e surfamos e surfamos esquerdas quilométricas de 3 a 5 pés. Depois de curtir um pôr-do-sol alucinante armamos nossa barraca do lado do carro e no pé de um coqueiro, na frente da segunda sessão da onda. Estávamos vivendo um de nossos sonhos, éramos surfistas de alma no ápice da felicidade, acampar de frente para uma onda perfeita para nós resume todo o verdadeiro sentimento da expressão soul surf, em época de milhares de campeonatos e forte marketing nos sentíamos heróis, heróis do esquecido surf de alma e que naquele momento estava vivo, desculpa o termo, mas merece, estava vivo pra caralho!
Durante a madrugada uma onda invadiu a praia e varreu nossa barraca, quase atolando o carro que estava do lado, olhamos para o mar e só víamos espumas, resolvemos dormir mais um pouco e esperar o primeiro raiar do sol, agora com a barraca mais afastada da areia. O que parecia sonho na madrugada se mostrou realidade quando clareou o dia, séries de mais de 10 pés, segundo os locais, quebravam no pico e abriam quase até outra praia, com certeza a segunda onda mais longa do mundo estava funcionando. Rapidamente peguei minha máquina de fotos e fui me posicionar, gritando aos quatro ventos “dalhe Ipojucã, a maior da série é tua, o mar da vida, a maior é tua, vai para o pico, desce na maior, na maior” sem perder tempo o meu mais antigo amigo, o surfista profissional Ipojucã Chaves remou sozinho para o outside de Gran Pavones com sua 5´11 rabeta swallow, talvez as fotos não mostrem com sinceridade a realidade mas as ondas estavam grandes e qualquer descuido poderia resultar em uma série cascuda na cabeça. Algum tempo depois, sob o olhar de muitos locais, vários americanos e alguns brasileiros, o soul surfer gaúcho Ipojucã, da escola do lendário Jairo Lumertz, desce uma onda no pico e surfa toda ela, atravessando a praia inteira com gritos e palmas servindo de trilha sonora, sem dúvida a onda da vida.
Após levantar o acampamento em Pavones rumamos para o norte, região de Tamarindo, as ondas do filme Endless Summer II. No caminho passamos na famosa esquerda de Boca Barranca, uma onda em uma boca de rio com água barrenta, berço do surf costa riquenho, não demoramos muito por ali e seguimos nossa viagem.
Chegamos em Playa Negra ao anoitecer e logo nos instalamos na pousada Kontiki, a dona é irmã do peruano que nos acolheu em Punta Hermosa no Peru, um ano antes, a hospitalidade daquele casal Martin e Giovana nos impressionou e seus conselhos eram sempre bem vindos, já que conheciam muito bem a região e eram muito respeitados por lá, ou seja, estávamos protegidos dos tão falados furtos.
Curtimos adoidados a vibração Pura Vida do Pacífico Norte, surfamos muito as ondas da clássica Playa Negra, Avellanas e até mesmo a raríssima direita de Tamarindo beach, o surf hot rolava solto todos os dias, sempre sob um sol muy caliente e regado a mate amargo, fiel companheiro do soul surfer gaúcho.
Após dias de muito surf decidimos encarar a parte mais duvidosa e perigosa dos nossos planos, chegar até a fantástica praia de Roca Bruja de carro, o jeito mais tradicional de surfar aquela onda é alugando um barco na playa del coco, como não estávamos em condições e também não aceitávamos o salgado preço cobrado pelos capitães dos barcos decidimos que havia chegado a hora de acabar com o mito de que não existe estrada até a pedra da bruxa.
Nosso “padre” na Costa Rica, o peruano Martin, nos deu o sinal verde dizendo existir uma estrada e foi nessa “estrada” que colocamos todo o nosso espírito aventureiro para funcionar, não parecia uma estrada, era como uma trilha abandonada, localizada em uma selva perto da fronteira com a Nicarágua, o lugar lembrava filmes como Pânico na floresta e o seriado Lost, macacos, cobras, aranhas, caranguejos, iguanas, escorpiões e até mesmo crocodilos nos davam as boas vindas e cada vez mais depositávamos nossas esperanças no querido Jeep Bego, que na metade do caminho ganhou o apelido de “Bagus” após fazer uma escalada quase impossível. De carro andamos uns 7 quilômetros e depois seguimos a pé mais umas duas horas até chegarmos exaustos na majestosa Roca Bruja.
Surfamos direitas incríveis naquele lugar preservado e paradisíaco, a natureza ali se encontrava em estado bruto, a vibe do lugar era especial. Pouco antes de chegarmos ao carro para seguirmos embora da selva começou a chover, ou seja, tivemos que correr contra o tempo pois quando chove a estrada acaba, por mais inacreditável que pareça quando chegamos salvos no asfalto da estrada principal desabou o maior temporal que já presenciei nos meus 21 anos de vida, realmente a sorte esteve do nosso lado.
Com nossa missão cumprida na Costa Rica e o sucesso de nossa expedição voltamos para Jacó, Pacífico central, e curtimos nossos últimos três dias de trip, tomando muita água de coco, apreciando a cerveja local e surfando as ondas de Hermosa e Jacó beach.
Acreditamos que o surf é uma eterna busca por ondas, aventuras, emoções e cultura, nós valorizamos muito as histórias e lembranças de nossas viagens, os momentos que passamos com os amigos nos acompanharão para sempre, como dizem por aí, dessa vida não se leva nada, só o que vivemos.
Agradecimentos:
Luis Miranda e Denise Luz, Vó Loni, Duda Arnhold, Thaís e Duda, Vó Luci, Natália Pereira, Planeta Surf, André Toppel, Bottom Turn, Mormaii e Sparrow surfboards